Dessa vez, O Filósofo da Maconhaaterrissou em um lugar muito especial — um espaço que faz parte da formação de um dos envolvidos nessa história em quadrinhos punk lisérgica, nascida para incomodar e libertar a mente: a casa da professora Sandra Silveira.
Professora de português, sempre incentivou a leitura e o pensamento crítico. Filha de outra docente, hoje falecida, Dona Malta, Sandra construiu uma forma de comunicação inteligente e diferenciada com os estudantes. Sempre se atualizando, observando novas tendências e evitando se prender ao passado.
Diego El Khouri, roteirista da graphic novel chapada, é grato por todo o incentivo e tem grande respeito por essa professora que tanto o instigou ao longo do ensino médio, no Colégio José Rodrigues Naves, em Goianira — uma cidade do interior de Goiás e que marcou profundamente sua jornada.
Na primeira página da HQ, como de costume, quem adquire o quadrinho ganha uma caricatura, e com a professora não foi diferente. Diego já tinha a desenhando anos atrás, aos 16 anos de idade; um desenho recentemente resgatado.
E abaixo a caricatura feita na HQ:
...Uma professora adquirir um quadrinho com esse peso mostra a cabeça boa que ela tem...
A exposição Ruas e Cores: Hip-Hop emTela segue em exibição na Cidade de Goiás até o dia 17/04 — e, devido ao sucesso da mostra, teve seu período prolongado — ampliando esse ciclo potente de encontros, trocas e atravessamentos entre arte, ancestralidade, museu e rua.
A mostra mergulha na força do hip-hop goiano, atravessando memória, identidade e transformação — uma expressão que nasce na rua, reverbera na arte e ocupa espaços, tensionando estruturas e abrindo novos caminhos.
Ainda dá tempo de sentir essa presença pulsando de perto.
Artista: Diego El Khouri
Produção cultural e curadoria: Lívia Batista
Site oficial com a pesquisa e as obras do projeto disponível:
* No Museu das Bandeiras, antigo espaço de repressão e encarceramento, ecoa uma história brutal marcada pela violência contra corpos escravizados. Hoje, essa mesma estrutura abriga vozes que resistem — e o hip-hop se inscreve ali como continuidade dessa memória: denúncia, ancestralidade e permanência.
Chegou a Vitória da Conquista (Bahia) um verdadeiro arsenal pesado vindo do subterrâneo, direto da casa de uma lenda viva do underground: Nem Tosco Todo, vocalista da clássica banda Cama de Jornal e uma das figuras mais importantes da cena independente brasileira.
Nem é um grande parceiro da Editora Merda na Mão. Inclusive, em seus dois últimos livros — Estamos Mais do que Vivos e Diálogos Imaginários e outros escritos (lançados pela Editora Dando a Letra e Tosco Todo) — fomos apoiadores contraculturais dessas obras surpreendentes, que também revelaram ao mundo seu lado literário.
Seu primeiro livro foi a biografia de 352 páginas intitulada Vagando por Aí, publicada em 2023. Em sua turnê por Goiânia, Nem trocou materiais com a Merda na Mão, na pessoa de Diego El Khouri — ocasião em que a editora expôs sua banquinha punk lisérgica no evento promovido pela Two Beers or Not Two Beers Records.
Foi nesse encontro que surgiu o convite para que a editora ajudasse Nem a impulsionar essa nova linguagem pulsante de sua existência: a literatura.
* Na foto Diego El Khouri & Nem Tosco Todo
Nem ficou muito interessado em adquirir a HQ O Filósofo da Maconha. Enviamos pra ele, passou dias e dias, semanas e nada do material chegar. No site do correio só informava a data que saiu de Goiânia... Até que no rastreamento apareceu uma informação absurda: o remetente autorizou destruir. Fui no correio e os próprios funcionários nunca viram nada parecido. Não consegui resolver isso. Tive que reenviar e enfim felizmente dessa vez chegou.
A Editora Merda na Mão respeita pra caralho a trajetória desse maluco, que faz da própria vida uma forma de resistência artística e cultural. Um agitador cultural de verdade, dos mais foda.
Pra gente, essa parceria é uma honra. Uma puta honra.
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No Youtubodigestivo o show que celebrou o encontro da Editora Merda na Mão com a banda punk Cama de Jornal:
* Nascido em Vitória da Conquista, Bahia, Emanuel Moraes, conhecido como Nem Tosco Todo é vocalista da banda de punk rock Cama de Jornal e tem um projeto paralelo chamado Nem Tosco Todo e as Crianças Sem Futuro.
O Filósofo da Maconha pousou no caos de São Paulo, no lar de uma roteirista relevante da cena dos quadrinhos nacionais: Anita Costa Prado, criadora de Katita, personagem clássica das tiras brasileiras — e não chegou sozinho. Levou consigo alguns zines publicados pela Editora Merda na Mão, além do zine O Berro, publicado pelo camarada Winter Bastos, que fazemos questão de espalhar por aí.
Título: Blasfemo nr. 2
Editor: Diego El Khouri
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 12
Arte da Capa: Diego El Khouri
Ano: 2022
Título: Blasfemo nr. 3
Editor: Diego El Khouri
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 12
Arte da Capa: Diego El Khouri
Ano: 2024
Título: Religare
Autor: Ningu3m
Prefácio: Fabio da Silva Barbosa
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 12
Ano: 2024
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Título: O Berro nr. 36
Editor: Winter Bastos
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 16
Arte da Capa: Winter Bastos
Ano: 2024
* Katita, personagem roteirizado pela Anita, se afirma como uma personagem de resistência: lésbica, crítica e direta, que usa o humor para tensionar preconceitos e confrontar posturas homofóbicas. É aí que reside a importância do quadrinho — não apenas como entretenimento, mas como ferramenta de enfrentamento e posicionamento dentro da cena dos quadrinhos brasileiros.
Esse viés mais provocativo aparece, inclusive, no zine “Fala aê, porra!!! nº 1”, de Diego El Khouri, publicado há cerca de uma década, onde uma dessas tiras explicita essa postura combativa:
E vale lembrar: quem adquirir O Filósofo da Maconha — um quadrinho de fôlego, com 126 páginas, roteiro de Fabio Barbosa e desenhos de Diego El Khouri — recebe uma caricatura personalizada na primeira página, espaço pensado justamente para esse tipo de intervenção artística, acompanhada de uma dedicatória.
E, claro, não poderia ser diferente: no exemplar recebido por Anita, está lá a caricatura dela:
E é uma honra para nós, da Editora Merda na Mão, ver um quadrinho feito com tanto suor e dedicação integrar o acervo de uma figura tão importante no cenário da arte brasileira. Pra a gente, isso é uma grande satisfação!
“Olhei para cima. O céu estava espetacular, um negrume profundo pilhado de estrelas, como só acontece longe das luzes da cidade. A Via Láctea se estendia como pinceladas de giz divino. Mas a beleza que deslumbrava também colocava tudo em perspectiva, e uma tristeza profunda bateu forte, mas por causa dele, de Lucas, que estava quebrado demais para conseguir apreciar uma noite como aquela.
Nesse instante de paz, uma ruptura: bem longe, atrás de um monte, ao fixar minha vista em um ponto qualquer daquela escuridão, eu ouvi uma cascata de sons que fez o meu chão tremer, o grito longo e áspero do aço se dobrando sobre si mesmo e o estalo final de mil fragmentos de vidro. E então, o silêncio. Um silêncio absoluto, pesado.
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Gelei. Meu corpo, uma estátua de pavor. Um pneu? Um animal na pista? Minha mente tentava, desesperadamente, encontrar uma explicação lógica, uma resposta que não fosse aquela. Mas era inútil.
A cena inteira dos últimos minutos se rebobinou em minha cabeça. O sorriso triste, a voz calma, o abraço apertado demais. “A gente se tromba lá em cima, no meio das estrelas...” A risada seca. “Até a próxima, viajante estelar.” Não foi uma piada, mas sim um presságio. O toque de punho não foi um cumprimento. Foi uma despedida.
E então, um som mais alto veio me assombrar, algo de dentro da minha cabeça. As minhas palavras... “Vai pra casa agora. Só... apaga. Desliga do mundo.” Um frio percorreu minha espinha, tão violento que minhas pernas bambearam por um instante. Aquelas palavras. Minhas. Eu as disse. Eu lhe dei a ideia? Eu que lhe dei a solução? O que eu quis dizer – um conselho para que ele descansasse – foi o que a mente de um homem no fundo do poço ouviu? Não, não foi um conselho. Foi a porra de uma instrução.
A verdade não se encaixou como uma peça de quebra-cabeça. Ela explodiu dentro de mim. Meu amigo não tinha superado. Ele não se acalmou. Apenas cumpriu a sua palavra, e com o meu aval. Ensaiou comigo e me deixou sair do carro para terminar, sozinho, o seu show.
Ali, parado na escuridão, sob o mesmo céu que pouco antes me parecia tão belo, senti o chão desaparecer. Eu não conseguia gritar. Não conseguia me mover. Só conseguia mirar a estrada, uma curva escura no nada, onde a noite, sob o olhar indiferente de um milhão de estrelas, havia acabado de engolir o meu melhor amigo.”