quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Arquivos da Insurgência # 1 - Canto do Povo — Raízes de Liberdade

Nova coluna da Editora Merda na Mão:


A partir de hoje, toda quinta-feira, vamos desenterrar nossas publicações, recuperar histórias, revisitar ações e colocar novamente em circulação os rastros da nossa guerrilha cultural. Porque a Editora Merda na Mão é passado, presente e futuro.

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Há  cinco anos, em 22 de outubro de 2021, Canto do Povo — Raízes de Liberdade, primeiro livro de poesia de Guilherme de Andrade, chegava da gráfica, pronto para ganhar as ruas, as periferias e as favelas do Brasil.

Natural de Santo André (SP), o poeta viu sua obra percorrer caminhos que ultrapassaram as páginas. O livro rodou de mão em mão, encontrou leitores por todo o país e, diante do apelo do público, ganhou novas tiragens. Aqui no blog da Editora Merda na Mão, nas  postagens antigas contém registros de alguns desses encontros entre a obra e seus leitores.

Mais do que publicar um livro, tivemos a honra de impulsionar uma voz. A repercussão de Canto do Povo — Raízes de Liberdade abriu caminhos para o poeta, que passou a ocupar outros espaços e a publicar também por outras editoras. Ver sua arte voar para tão longe é motivo de orgulho para nós.

Afinal, livro não foi feito para mofar em prateleira. Poesia também é movimento, circulação, encontro e transformação.



Seguimos na contramão, fazendo o que sempre fizemos: publicando os impublicáveis, divulgando os indivulgáveis e cuspindo no status quo.


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Título: Canto do Povo - Raízes de Liberdade 

Autor: Guilherme de Andrade 

Formato: 14X21 cm

Páginas: 55

Capa: cartão 300 c/ laminação brilho

Diagramação da capa: Jackson Abacatu

Diagramação do miolo: Fabio da Silva Barbosa

Arte da capa: Lucas Santana

Revisão: Wagner Teixeira 

Ano: 2021

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6 poemas de Guilherme de Andrade no blog Ruído Manifesto: 

https://ruidomanifesto.org/seis-poemas-de-guilherme-de-andrade-4/



Conselho


Poesia desça do pedestal! 

Retire de suas linhas 

Palavras esquecidas, mortas. 


Poesia, não se esqueça 

Seu lugar não é presa 

Mofando dentro da gaveta. 


Poesia vem pra rua

E seus versos 

Na boca do povo serão eternos.


- Guilherme de Andrade -










Homenagem a Favela

 

Eu canto para a Favela

Lugar que me acolheu

Acolheu meus pais e

Tantos, tantos outros…

 

Eu canto a este lugar

Onde vivem todos

Que levantaram a cidade

Que a fazem funcionar

 

Canto ao reduto do Brasil

Fortaleza retinta

Resistência proletária

População consagrada

 

Canto para a Favela

Casa dos orixás

Morada dos poetas

Berço do carnaval

 

Canto para a Favela

Mãe de todos os pobres

Porém, muito perseguida

Terra marginalizada

 

Canto para a favela

Sempre cantarei

 

Como nas poesias épicas

Meus versos vivem em batalhas

 

Canto para a favela

Lugar que derrama pranto

É um bocado de dificuldade

Que nem sempre se dá para sorrir

 

Meu canto é de libertação

Zumbi, Solano Trindade

Clementina de Jesus, Dina Di

Também o fizeram

 

Canto para a Favela

Lugar que me apresentou a saudade

De quem já não está mais entre nós

Pessoas que fazem muita falta

 

Canto numa roda de jongo

Canto numa roda de samba

Canto numa roda de capoeira

Canto numa roda de macumba

 

Canto para a Favela

Quando estou no churrasco de laje

Vendo as crianças brincando pelas vielas

Momentos tão únicos…

 

Canto para a Favela

Sem medo do opressor

Porque eu sei que aqui

É morada de um povo forte

 

Canto para a Favela

Mesmo quando choro

Nesse caso,

Eu solto um imenso lamento

 

Canto para a Favela

Paisagem mais alta

Vista mais linda

Estamos sempre pertinho do céu

 

Canto para a Favela

As mães solteiras

Aos moradores de rua

Aos desiludidos com a vida

 

Canto para a Favela

Enquanto eu viver

Nunca me cansarei de cantar

Verdadeira mãe solo gentil

 

Quando a Favela canta

Não há quem não se emocione

Aí, meu irmão, é vida dura

Realidade pura

 

Quando a periferia solta a voz

Vem a história do Brasil inteiro

Dos navios negreiros

Aos retirantes nordestinos

 

Quando a música da favela ecoa

É canção de resistência

Precisa guardá-la no fundo do peito

Deixar a música te consolar

 

A favela sempre canta

Em direção a liberdade

Sem nada a temer

A favela segue em direção da paz.


(Guilherme de Andrade)


domingo, 11 de outubro de 2026

O fascismo avança, o sangue escorre... e o silêncio é cúmplice

 

Desde 12 de abril de 2020, nossa proposta é publicar os impublicáveis,  rasgar os manuais de boas maneiras e fazer circular aquilo que o sistema prefere manter debaixo do tapete. Sem cobrar de quem escreve para existir. Sem pedir licença para ocupar espaços. Sem transformar a rebeldia em mercadoria de luxo.

Somos anarquistas. Desconfiamos dos palanques, dos salvadores da pátria, das promessas eleitorais e desse teatro tosco em que os mesmos de sempre disputam o poder enquanto a classe trabalhadora continua pagando a conta. Nunca confundimos urna com revolução, nem democracia formal com emancipação. Mas também não confundimos coerência com cegueira, nem radicalidade com suicídio social.

A guerrilha cultural exige vísceras para criar e sangue-frio para agir. O fígado produz a revolta. A cabeça calcula o próximo movimento. O trampo com a Merda na Mão nesses anos de combatividade nos deu essa lição.  Quem confunde estratégia com rendição nunca saiu do próprio espelho.

Não temos compromisso com políticos. Temos compromisso com a classe trabalhadora, com os marginalizados, com quem tem a vida moída pela exploração e com quem sequer dispõe do mínimo necessário para respirar, comer e existir com dignidade.

Somos críticos pesados da dita social democracia (vide nossos livros, zines e quadrinhos), das conciliações de gabinete e das alianças que tentam vender como horizonte aquilo que mal consegue ultrapassar o presente. Nada disso nos obriga, porém, a fechar os olhos para o tamanho da ameaça.

E é preciso dizer sem rodeios: não estamos diante de uma disputa política qualquer. Estamos diante do avanço de uma onda nazifascista que ameaça direitos, corpos, liberdades e a própria possibilidade de organização popular.

Enquanto uns denunciam o genocídio, outros celebram a devastação. Enquanto famílias são esmagadas pela guerra, pela fome e pela falta de condições mínimas de sobrevivência, há quem transforme a tragédia humana em combustível ideológico. Nossa solidariedade não é seletiva. Nossa indignação não depende da conveniência eleitoral. Nenhuma bandeira justifica a desumanização de um povo.

É por isso que este não é o momento do purismo ideológico, da disputa de egos ou da lacração orgástica nas redes sociais. Não é momento de se omitir para preservar a própria reputação nos círculos militantes. Não é momento de assistir à barbárie avançar enquanto cobramos dos outros uma pureza política.

É MOMENTO DE ORGANIZAR A RESISTÊNCIA. DE SOMAR FORÇAS. DE INFLAMAR A INSUGÊNCIA DO GUETO.

E sim: é momento de derrotar eleitoralmente o projeto político dessa família que representa, para nós, uma ameaça concreta à democracia e aos direitos sociais. Não porque a urna seja a saída definitiva. Não porque tenhamos abandonado nossas críticas ao jogo institucional. Mas porque recusar uma trincheira necessária em nome de uma pureza abstrata também pode significar entregar terreno ao inimigo. E principalmente: ter empatia aos mais desfavorecidos.

A luta não termina na eleição. A luta começa antes, atravessa o presente e continua depois. Precisamos respirar, reorganizar nossas forças, fortalecer os vínculos, ocupar as ruas, produzir cultura e construir alternativas para além dos limites impostos pelo próprio sistema.

E, para quem vier com decepção, dedo em riste ou carteirinha de revolucionário fiscalizando nossa posição: estamos cagando.

Não fundamos a Editora Merda na Mão para colecionar aprovação. Não publicamos os impublicáveis para pedir autorização aos fiscais da coerência alheia. E não chegamos até aqui para baixar a cabeça quando a conjuntura exige posicionamento.

Aos que compreendem que há momentos em que as diferenças não desaparecem, mas precisam ser atravessadas por uma urgência maior, deixamos nossa saudação.

PAZ ENTRE NÓS. GUERRA AOS SENHORES.

Seguiremos publicando os impublicáveis, espalhando literatura, quadrinhos, poesia e arte pelas frestas desse mundo apodrecido. Seguiremos de costas para o conformismo, para os donos da verdade e para os abutres que lucram com a miséria humana.

A Editora Merda na Mão continua na contramão.

Porque a nossa coerência nunca foi ficar parada enquanto tudo desaba.


* Trecho da HQ O Filósofo da Maconha

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A Editora Merda na Mão invadiu a Universidade Federal Fluminense... e a gente nem sabia...




A Monique Brito é leitora da Editora Merda na Mão, mora em Niterói (RJ) e recentemente comprou dois exemplares da HQ O Filósofo da Maconha, um pra ela e outro para o sobrinho, de 16 anos.

E tem um detalhe phoda nisso:

Ela disse que decidiu que a Editora Merda na Mão seria uma das ferramentas para ajudar a expandir a mente do garoto.

Isso, pra nós, é do caralho!

Porque é exatamente esse tipo de coisa que faz uma editora underground continuar existindo: inflamar o pensamento insurgente.

O quadrinho ainda está viajando pelo correio até Niterói. Mas, antes mesmo de chegar, já aconteceu outra história surpreendente. 



A Monique mandou uma foto perguntando se determinado traço era meu. Ela achou parecido. Não era.



Era Religare, zine de Ningu3m, uma HQ poético-filosófica publicada pela Merda na Mão. Ningu3m é multiartista e também participou do lançamento de O Filósofo da Maconha, tocando na Mandrake Comic Shop, em Goiânia, em 2024.




Ele também já passou pelo nosso clássico Deu Merda, programa de entrevistas do YouTubodigestivo da Editora Merda na Mão, falando sobre arte, cultura, ativismo, resistência e outras coisas que normalmente deixam o pensamento comportado bastante desconfortável.



E não parou aí.

A Monique também encontrou um Zazazine, publicação colaborativa produzida pelo Coletivo Mente Sativa, Santa Ganja e  Editora Merda na Mão em suas três edições impressas. Nessas edições saíram cartuns inéditos do Filósofo da Maconha.




E onde ela encontrou tudo isso?

Na estante de doações de livros do Bloco C do Instituto de Letras da UFF (Universidade Federal Fluminense), em Niterói.

Fica no hall de entrada do instituto, acessível a estudantes e professores. Toda semana tem gente deixando livros e gente pegando livros.




E lá estavam os nossos.

É aí que a coisa começa a ficar interessante.

Porque a Merda na Mão tem poucas tiragens. É uma editora independente, underground, sem dinheiro sobrando, sem estrutura nenhuma, sem distribuição gigantesca.

Mas os livros estão circulando.

Estão em estantes de doação.

Em universidades.

Em feiras.

Em espaços culturais.

Nas mãos de leitores.

E às vezes até em bancos de praça. 

Já teve jornalista que encontrou um dos nossos livros em um banco em Porto Alegre, com um recado na primeira página dizendo para a pessoa ler e depois deixar o livro no próximo banco. Aqui nesse vídeo tem mais detalhes dessa história incrível: 



Ou seja: os livros estão criando suas próprias rotas.

A gente publica e solta no mundo.

Depois eles começam a andar sozinhos.

E volta e meia aparecem notícias de algum lugar onde uma publicação da Merda na Mão foi parar sem que a gente sequer soubesse. 

Uma hora a gente conta aqui  esses relatos inusitados que volta e meia recebemos.


A Editora Merda na Mão é um monstro com vários  tentáculos.

Um monstro editorial subterrâneo.

Um bicho com tentáculos demais para a gente controlar.

É pra isso que essa porra existe.

A Editora Merda na Mão fugiu do controle.

Ainda bem...




sábado, 3 de outubro de 2026

José Zinerman Nogueira lança edição especial do zine Heróis do Papel comemorando os 16 anos do zine Reboco Caído

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Nas últimas semanas a Editora Merda na Mão vem fazendo várias postagens, divulgações de lançamentos de zines, vídeos e documentário sobre os 16 anos do zine Reboco Caído




José Zinerman Nogueira, o fóssil vivo do underground, lançou em 1º de outubro de 2026 mais uma edição de sua série de zines digitais Heróis do Papel. Desta vez, a publicação é dedicada aos 16 anos do Zine Reboco Caído, criado pelo escritor, jornalista e educador social Fabio da Silva Barbosa, que ao lado de Diego El Khouri criou a Editora Merda na Mão.

Com impressionantes 127 páginas, o PDF reúne todas as mais de 70 capas do Reboco Caído e apresenta um amplo levantamento da trajetória de Fabio, incluindo seus livros, e-books, zines, jornais, PDFs e programas de rádio.



Lançamento da  Fanzinoteca Zine House Brasil.

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Fabio também organizou eventos como a Tarde Multicultural Sem Fronteiras, que teve cinco edições, e esteve à frente de programas de rádio como A Hora Macabra, Aleluia Nunca Mais: A Trilha Sonora do Fim do Mundo e Resistência Sonora.




O Reboco Caído recebeu o Prêmio Fanzine 2016, no 2º Gibifest de Alvorada, realizado em 2017. 


Um aspecto especialmente interessante dessa trajetória é que cada capa do Reboco Caído foi criada por um artista visual diferente. Logo na entrada de cada edição, essa diversidade de linguagens já revela a potência do Reboco como um verdadeiro painel da arte contemporânea subterrânea, reunindo diferentes artistas, poetas, escritores, quadrinistas e outros agentes da cultura independente.



No canal do YouTubdigestivo da Editora Merda na Mão, há também um vídeo sobre os capistas do Reboco, reunindo depoimentos que ajudam a dimensionar essa história e as conexões construídas ao longo dos anos:



Fabio é natural de Niterói (RJ), cidade onde o Reboco Caído nasceu. Atualmente vive em Porto Alegre (RS). Teve  também uma passagem por Foz do Iguaçu (PR).

No mesmo canal, o vídeo “Impressos de Guerrilha: A Revolução das Editoras Alternativas” registra um bate-papo realizado no espaço da Feira UNILA, no Jardim Universitário, em Foz do Iguaçu. Ao lado de outros participantes, Fabio fala sobre sua entrada no universo dos zines e sobre o nascimento do monstro de vários tentáculos chamado Editora Merda na Mão:




O Heróis de Papéis dedicado ao Reboco Caído é, portanto, mais do que uma homenagem: é um documento de 127 páginas sobre 16 anos de existência e resistência, reunindo capas, memória, trajetória editorial e parte significativa do percurso de um dos personagens atuantes mais phodas e profícuos do underground brasileiro. Fabio é realmente uma máquina de produção  cultural, mosca na sopa na cara do sistema fétido, outsider subversivo.

Solicitar o PDF desse material através dos emails

 fsb1975@yahoo.com.br 

ou 

jn7400@gmail.com

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* Não podemos esquecer que nesse mês de Outubro Fabio vai lançar a edição especial dos 16 anos do Reboco Caído, um zine impresso com mais páginas do que o habitual. A campanha que fizemos de arrecadação para possibilitar esse zine maior foi um sucesso. Agradecemos a todos os malucos, malucas e maluques que contribuíram para esse lançamento. 

Nós por nós, coletividade e autogestão sempre!

* Esse mês também, através do Estúdio Merda Pura (o estúdio imaginário da Editora Merda na Mão), vamos lançar o documentário Zine Reboco Caído — 16 anos de guerrilha cultural. Aqui você pode ver o trailer: 



* Veja também:

 Instituto de Estudos Libertários entrevista Fabio da Silva Barbosa: https://ielibertarios.wordpress.com/2026/10/03/instituto-de-estudos-libertarios-entrevista-fabio-da-silva-barbosa/






* José Zinerman Nogueira é poeta e escritor, um documento vivo do underground brasileiro. Sua trajetória atravessa décadas de literatura independente, inquietação e resistência cultural. Entre versos, ideias e experiências, sua obra pulsa à margem dos circuitos oficiais. Um sujeito que fez da palavra um território de liberdade, memória e transgressão.





 *O zine Reboco Caído existe em versão impressa e digital

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Nem Tosco Todo, voz histórica do punk baiano, entrevista Diego El Khouri

Nem Tosco Todo ,vocalista da clássica banda punk Cama de Jornal , de Vitória da Conquista (BA), formada em 2001, e do projeto Nem Tosco Todo e as Crianças Sem Futuro, entrevistou o multiartista Diego El Khouri, um dos criadores da Editora Merda na Mão.



Um papo  sobre arte, punk, poesia, quadrinhos, pintura, underground, sobrevivência, Editora Merda na Mão, O Filósofo da Maconha, XXI — A Ópera da Desgraça, War Brain, Subversivas e a obsessão de continuar produzindo mesmo quando o mundo manda parar.



Duas trajetórias que se cruzaram no subterrâneo e continuam fazendo barulho.


* Diego e Nem em Goiânia 


Leia a entrevista completa no Tosco Todo:


https://toscotodo.blogspot.com/2026/09/entrevista-com-o-multiartista-diego-el.html


Publicando os impublicáveis.

Inflamando a insurgência do gueto 


  
* Diego El Khouri com a HQ XXI — A Ópera da Desgraça 


domingo, 27 de setembro de 2026

Trailer: Zine Reboco Caído — 16 anos de guerrilha cultural

 



Enfim... Acabamos de postar o trailer do documentário Zine Reboco Caído — 16 anos de guerrilha cultural, produzido pelo Estúdio Merda Pura, o estúdio imaginário da Editora Merda na Mão.



O filme reúne poetas, cartunistas, escritores, músicos, artistas e leitores que, de diferentes formas, cruzaram essa trajetória ao longo das décadas: entrevistas, colaborações, textos, parcerias e, principalmente, a circulação de ideias que fizeram do Reboco Caído um grande painel da arte subterrânea.


O documentário será lançado em outubro de 2026, mês em que o Reboco Caído completa 16 anos. A data exata ainda será divulgada.

Acompanhe as redes antissociais  da Editora Merda na Mão para não perder o lançamento.


* 16 anos. Mais de 70 edições. Uma porrada de histórias.


Veja o trailer do doc.:



E o reboco continua caindo.

Publicando os impublicáveis.

Divulgando os indivulgáveis.

Cuspindo no status quo.


zine sem transgressão é alienação




* Fabio da Silva Barbosa é criador do zine Reboco Caído, publicação independente com mais de 70 edições.

Em 2020, ao lado de Diego El Khouri, fundou a Editora Merda na Mão.
A editora nasceu com a proposta de publicar os impublicáveis, abrindo espaço para literatura, poesia, quadrinhos e outras produções independentes.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Gabriel Augusto (1991-2026): a arte dark silenciou...

 Por: Diego El Khouri 




O mundo perdeu a presença física de um ser humano incrível. O  planeta Ficou mais frio,  mais chato, mais insensível. 

Gabriel Augusto era um grande artista. Deixa um puta legado, uma obra contundente, corajosa que nunca será esquecida. A história  não  vai se calar perante o seu talento.

Conheci ele por volta de 2016 / 2017, através do tatuador Hélio Nascimento, o Helião. O Helião queria me apresentar esse maluco que tinha uma obra absurda, mas estava meio perdido, sem saber por onde começar para organizar sua primeira exposição.




Eu vivia um momento muito profícuo na época, com várias exposições acontecendo no Brasil e fora, individuais e coletivas, inclusive algumas simultaneamente. Quando o Helião me mostrou o trabalho do Gabriel, fiquei impactado. Chapei mesmo!

Cheguei a tentar entrevistá-lo para o canal no YouTube, mas ele era tímido com as câmeras. E no fim, nem precisou de ajuda. Ele mesmo abriu seu caminho e alçou voos muito longe.



Rompeu totalmente a  bolha de Goiânia. Hoje a obra dele está em coleções particulares de 15 países. Fez parte, por exemplo, dos coletivos Déstructuralisme  Figuratif e Dark Art Society, que abriu portas pra mostras  na França e nos EUA.



Esse múltiplo poeta do absurdo, das cores mórbidas e bizarras, começou a desenhar com sete anos de idade no Museu de Arte de Goiânia. Depois fez SENAC e entrou na UFG em 2014, no curso de Artes Visuais. Foi nesse contexto que comecei a conviver mais com ele.

Era um cara que já tinha essa pegada dark, muito esfumaçada, com crânios, caveiras, principalmente crânios, e uma produção compulsiva. A estrutura engessada e careta da universidade não entendeu esse talento. Um professor,  inclusive, pediu pra ele abandonar esse lance de pintar crânios. Ele se exilou da sala de aula e ficava pelos corredores desenhando compulsivamente, até tomar a decisão mais ousada da vida dele: abandonar a faculdade e tudo para viver exclusivamente da arte.

Com isso, se tornou também um grande tatuador. Sua tattoo perambulava entre fineline  e blackwork, mas sempre com foco autoral,  não comercial. 

* Tattoos que Gabriel fez no  Diego El Khouri
 

Transitava, portanto entre múltiplas linguagens, como a pintura, a tatuagem, a escultura. Ele certa vez disse que acreditava "que todo tipo de arte se conecta entre si", por isso ele diversificada tanto nos materias.




Já a poética era a mesma: obras mórbidas quase cheirando enxofre. Rostos desconfigurados,  corpos dissecados,  cores frias, escorrendo tinta, emulando carne em putrefação. O retrato de uma sociedade doente, solitária, rostos sem forma, sufocados,  enforcados, dilacerados, à beira do precipício do século sinistro. 

Gabriel Augusto partiu no dia 23 de setembro de 2026, aos 35 anos, na porta de  sua casa, quando chegava do treino, vítima de um infarto.  E o mais chocante é que ele já tinha uma exposição agendada para esta semana. Neste sábado, dia 26 de setembro, às 11h, sua obra integra a mostra comemorativa de 45 anos da Galeria Tina Zappoli, em Porto Alegre (RS), a coletiva A ARTE ALI, que reúne 25 artistas que fazem parte da história da galeria.



* Na foto: Diego El Khouri e Gabriel Augusto 

Quando  eu e o Fabio da Silva Barbosa criamos a  Editora Merda na Mão, com a proposta de publicar os impublicáveis, ficamos imaginando qual seria a logo. Fizemos alguns desenhos rápidos, mas logo definimos que seria um braço, uma mão jogando um cagalhão pra frente de quem estivesse vendo.


E pra ficar um desenho diferente de tudo, resolvi colocar nesse braço as tatuagens que o Gabriel fez no meu braço direito. Eu tenho o braço direito inteiro tatuado por ele, e as costas também, tudo fechado com desenhos dele. Tudo freehand. Ele ia criando na hora e tatuando.



Um dia, me encontrei com ele pra entregar algumas publicações da Editora Merda na Mão e, tomando cerveja, a ficha dele caiu: "Porra, essa tatuagem da logo é a tatuagem que eu fiz em você!". Foi muito divertido ver a reação dele.

Então, enquanto a Editora Merda na Mão existir, ela vai carregar sempre um pedaço da arte dele. Ele partiu em Goiânia (onde moro) e sábado já tem outra exposição sua em Porto Alegre (onde Fabio mora): dois criadores dessa editora de vários  tentáculos e que publica obras subversivas e indigestas.




***

Hoje acendo o cânhamo em frente à janela. A cidade em chamas, a cidade-necrópole, a cidade-vertigem... O caos urbano batendo lá fora e aqui dentro... Sopro a fumaça, essa mesma fumaça que tantas vezes compartilhamos... Entre conversas, risadas, reflexões e bebidas... Fumaça, vapor e imagem... te conhecer foi um privilégio,  camarada!... 

Quando eu partir espero deixar boas lembranças nas pessoas como você deixou em todos nós... Talento imenso e humildade gigante, atitude e inquietação... Honestidade e dedicação...


E a fumaça  prossegue... Vá em paz, amigo...