Desde 12 de abril de 2020, nossa proposta é publicar os impublicáveis, rasgar os manuais de boas maneiras e fazer circular aquilo que o sistema prefere manter debaixo do tapete. Sem cobrar de quem escreve para existir. Sem pedir licença para ocupar espaços. Sem transformar a rebeldia em mercadoria de luxo.
Somos anarquistas. Desconfiamos dos palanques, dos salvadores da pátria, das promessas eleitorais e desse teatro tosco em que os mesmos de sempre disputam o poder enquanto a classe trabalhadora continua pagando a conta. Nunca confundimos urna com revolução, nem democracia formal com emancipação. Mas também não confundimos coerência com cegueira, nem radicalidade com suicídio social.
A guerrilha cultural exige vísceras para criar e sangue-frio para agir. O fígado produz a revolta. A cabeça calcula o próximo movimento. O trampo com a Merda na Mão nesses anos de combatividade nos deu essa lição. Quem confunde estratégia com rendição nunca saiu do próprio espelho.
Não temos compromisso com políticos. Temos compromisso com a classe trabalhadora, com os marginalizados, com quem tem a vida moída pela exploração e com quem sequer dispõe do mínimo necessário para respirar, comer e existir com dignidade.
Somos críticos pesados da dita social democracia (vide nossos livros, zines e quadrinhos), das conciliações de gabinete e das alianças que tentam vender como horizonte aquilo que mal consegue ultrapassar o presente. Nada disso nos obriga, porém, a fechar os olhos para o tamanho da ameaça.
E é preciso dizer sem rodeios: não estamos diante de uma disputa política qualquer. Estamos diante do avanço de uma onda nazifascista que ameaça direitos, corpos, liberdades e a própria possibilidade de organização popular.
Enquanto uns denunciam o genocídio, outros celebram a devastação. Enquanto famílias são esmagadas pela guerra, pela fome e pela falta de condições mínimas de sobrevivência, há quem transforme a tragédia humana em combustível ideológico. Nossa solidariedade não é seletiva. Nossa indignação não depende da conveniência eleitoral. Nenhuma bandeira justifica a desumanização de um povo.
É por isso que este não é o momento do purismo ideológico, da disputa de egos ou da lacração orgástica nas redes sociais. Não é momento de se omitir para preservar a própria reputação nos círculos militantes. Não é momento de assistir à barbárie avançar enquanto cobramos dos outros uma pureza política.
É MOMENTO DE ORGANIZAR A RESISTÊNCIA. DE SOMAR FORÇAS. DE INFLAMAR A INSUGÊNCIA DO GUETO.
E sim: é momento de derrotar eleitoralmente o projeto político dessa família que representa, para nós, uma ameaça concreta à democracia e aos direitos sociais. Não porque a urna seja a saída definitiva. Não porque tenhamos abandonado nossas críticas ao jogo institucional. Mas porque recusar uma trincheira necessária em nome de uma pureza abstrata também pode significar entregar terreno ao inimigo. E principalmente: ter empatia aos mais desfavorecidos.
A luta não termina na eleição. A luta começa antes, atravessa o presente e continua depois. Precisamos respirar, reorganizar nossas forças, fortalecer os vínculos, ocupar as ruas, produzir cultura e construir alternativas para além dos limites impostos pelo próprio sistema.
E, para quem vier com decepção, dedo em riste ou carteirinha de revolucionário fiscalizando nossa posição: estamos cagando.
Não fundamos a Editora Merda na Mão para colecionar aprovação. Não publicamos os impublicáveis para pedir autorização aos fiscais da coerência alheia. E não chegamos até aqui para baixar a cabeça quando a conjuntura exige posicionamento.
Aos que compreendem que há momentos em que as diferenças não desaparecem, mas precisam ser atravessadas por uma urgência maior, deixamos nossa saudação.
PAZ ENTRE NÓS. GUERRA AOS SENHORES.
Seguiremos publicando os impublicáveis, espalhando literatura, quadrinhos, poesia e arte pelas frestas desse mundo apodrecido. Seguiremos de costas para o conformismo, para os donos da verdade e para os abutres que lucram com a miséria humana.
A Editora Merda na Mão continua na contramão.
Porque a nossa coerência nunca foi ficar parada enquanto tudo desaba.


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