quarta-feira, 25 de março de 2026

Poema incluido no livro DESHUMANISMO EM DISSONNETTO, publicado pelo sello Merda na Mão.

 Por Glauco Mattoso



JUSTIÇA POR PREMISSA [3248]
A scena, na politica, alguem teme.
Tentou se excafeder, mas foi, coitado,
cercado pelo povo o deputado.
Rendeu aquelle caso muito meme.
É typico do povo brazileiro:
Sahindo da butique, o reconhesce
alguem que grita: "É elle, o mensaleiro!"
E é como si na guerra elle estivesse.
Primeiro, uns empurrões, daqui e dalli.
Um murro elle revida, mas recebe
ja muitos. Accossado pela plebe,
bambeia e até nas calças faz chichi.
E segue-se o ridiculo ropteiro:
Emfim desequilibra-se: paresce
um sacco sob o chute que, certeiro,
um corte abre na bocca que faz prece.
Nem grita mais. Nem chora mais. Nem geme.
Lynchado a ponctapés, ninguem seu brado
attende, por soccorro: "Era um saphado!"
O corpo quer a Casa que se creme.
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terça-feira, 24 de março de 2026

O Filósofo da Maconha agora integra o acervo de Anita Costa Prado, criadora da Katita, personagem clássica dos quadrinhos brasileiros


O Filósofo da Maconha pousou no caos de São Paulo, no lar de uma roteirista relevante da cena dos quadrinhos nacionais: Anita Costa Prado, criadora de Katita, personagem clássica das tiras brasileiras — e não chegou sozinho. Levou consigo alguns zines publicados pela Editora Merda na Mão, além do zine O Berro, publicado pelo camarada Winter Bastos, que fazemos questão de  espalhar por aí.






Título: Blasfemo nr. 2
Editor: Diego El Khouri
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 12
Arte da Capa: Diego El Khouri
Ano: 2022




Título: Blasfemo nr. 3
Editor: Diego El Khouri
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 12
Arte da Capa: Diego El Khouri
Ano: 2024



Título: Religare

Autor: Ningu3m

Prefácio: Fabio da Silva Barbosa 

Formato: 14 x 21 cm 

Páginas: 12

Ano: 2024

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Título: O Berro nr. 36
Editor: Winter Bastos
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 16
Arte da Capa: Winter Bastos
Ano: 2024


* Katita, personagem roteirizado pela Anita, se afirma como uma personagem de resistência: lésbica, crítica e direta, que usa o humor para tensionar preconceitos e confrontar posturas homofóbicas. É aí que reside a importância do quadrinho — não apenas como entretenimento, mas como ferramenta de enfrentamento e posicionamento dentro da cena dos quadrinhos brasileiros.


Esse viés mais provocativo aparece, inclusive, no zine “Fala aê, porra!!! nº 1”, de Diego El Khouri, publicado há cerca de uma década, onde uma dessas tiras explicita essa postura combativa:





E vale lembrar: quem adquirir O Filósofo da Maconha — um quadrinho de fôlego, com 126 páginas, roteiro de Fabio Barbosa e desenhos de Diego El Khouri — recebe uma caricatura personalizada na primeira página, espaço pensado justamente para esse tipo de intervenção artística, acompanhada de uma dedicatória.

E, claro, não poderia ser diferente: no exemplar recebido por Anita, está lá a caricatura dela:



E é uma honra para nós, da Editora Merda na Mão, ver um quadrinho feito com tanto suor e dedicação integrar o acervo de uma figura tão importante no cenário da arte brasileira. Pra a gente, isso é uma grande satisfação!




segunda-feira, 23 de março de 2026

Revista O Bule — Coluna # 9 — Trecho de ‘Crisântemo’

 


https://www.revistaobule.com.br/

Por Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior


“Olhei para cima. O céu estava espetacular, um negrume profundo pilhado de estrelas, como só acontece longe das luzes da cidade. A Via Láctea se estendia como pinceladas de giz divino. Mas a beleza que deslumbrava também colocava tudo em perspectiva, e uma tristeza profunda bateu forte, mas por causa dele, de Lucas, que estava quebrado demais para conseguir apreciar uma noite como aquela.


Nesse instante de paz, uma ruptura: bem longe, atrás de um monte, ao fixar minha vista em um ponto qualquer daquela escuridão, eu ouvi uma cascata de sons que fez o meu chão tremer, o grito longo e áspero do aço se dobrando sobre si mesmo e o estalo final de mil fragmentos de vidro. E então, o silêncio. Um silêncio absoluto, pesado.


Imagem


Gelei. Meu corpo, uma estátua de pavor. Um pneu? Um animal na pista? Minha mente tentava, desesperadamente, encontrar uma explicação lógica, uma resposta que não fosse aquela. Mas era inútil.


A cena inteira dos últimos minutos se rebobinou em minha cabeça. O sorriso triste, a voz calma, o abraço apertado demais. “A gente se tromba lá em cima, no meio das estrelas...” A risada seca. “Até a próxima, viajante estelar.” Não foi uma piada, mas sim um presságio. O toque de punho não foi um cumprimento. Foi uma despedida.


E então, um som mais alto veio me assombrar, algo de dentro da minha cabeça. As minhas palavras... “Vai pra casa agora. Só... apaga. Desliga do mundo.” Um frio percorreu minha espinha, tão violento que minhas pernas bambearam por um instante. Aquelas palavras. Minhas. Eu as disse. Eu lhe dei a ideia? Eu que lhe dei a solução? O que eu quis dizer – um conselho para que ele descansasse – foi o que a mente de um homem no fundo do poço ouviu? Não, não foi um conselho. Foi a porra de uma instrução.


A verdade não se encaixou como uma peça de quebra-cabeça. Ela explodiu dentro de mim. Meu amigo não tinha superado. Ele não se acalmou. Apenas cumpriu a sua palavra, e com o meu aval. Ensaiou comigo e me deixou sair do carro para terminar, sozinho, o seu show.


Ali, parado na escuridão, sob o mesmo céu que pouco antes me parecia tão belo, senti o chão desaparecer. Eu não conseguia gritar. Não conseguia me mover. Só conseguia mirar a estrada, uma curva escura no nada, onde a noite, sob o olhar indiferente de um milhão de estrelas, havia acabado de engolir o meu melhor amigo.”


domingo, 22 de março de 2026

HQ XXI: A Ópera da Desgraça — 204 páginas de caos e transgressão gráfica | Novo lançamento da EMNM

A 59ª publicação da Editora Merda na Mão não pede licença: invade.



São 204 páginas de uma obra visceral, um soco prolongado que atravessa três anos de gestação (2019–2023) — antes, durante e depois do colapso pandêmico — e só agora, em 2026, rompe a carne do tempo como um parto maldito.


Criada por Diego El Khouri, o outsider da galáxia de Parnaso, essa HQ é menos um livro e mais um documento de sobrevivência. Um registro bruto de quem desenhava como quem escreve o último adeus da arte — com a cortina caindo, a luz se apagando na retina e o mundo apodrecendo em volta.


Entre o caos cotidiano, a precariedade extrema, a luta insana por existir e outras criações que disputavam espaço com a ruína, essa obra ficou anos enclausurada. Guardada. Fermentando.


Agora, ela é devolvida ao mundo como deve ser:

um vômito gráfico, indigesto, provocativo.


Uma crítica sem anestesia, talvez uma das mais contundentes que o século XXI ainda vai ser forçado a engolir.


Com roteiro e desenhos de Diego El Khouri, prefácio brutal de Fabio da Silva Barbosa (do clássico zine Reboco Caído) e diagramação precisa e poética de Lívia Batista.



* Era pra ter sido publicada ontem, dia 21, mas devido problemas técnicos finalizamos hoje...   

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Editora Merda Na Mão segue publicando os impublicáveis e cuspindo no status quo

Quem quiser adquirir é só acessar o link abaixo. O quadrinho chega numa boa, direto na sua casa:

https://loja.uiclap.com/titulo/ua160029/





quinta-feira, 19 de março de 2026

Conexão Editora Merda na Mão e banda Exame de Fezes: duas bostas bombásticas incomodando o status quo — potências incendiando a cena artística

 


Chegou à casa do jornalista, poeta e músico Ulisses Aesse, figura conhecida de Goiânia, um exemplar da HQ punk lisérgica O Filósofo da Maconha, além de zines vomitados pela Editora Merda na Mão e por parceiros como o selo Metal Reunion Zine, Blasmorfose e O Berro.

Esse camarada é vocalista e um dos fundadores da banda punk/grindcore Exame de Fezes, surgida nos anos 1980. Letras agressivas, vocal violento e berrado, uma porrada de palavrões, revolta, sarcasmo... uma postura visceral e indigesta: conexão melhor não poderia haver.



O desenhista do quadrinho, Diego El Khouri, é amigo de Ulisses Aesse há mais de uma década. Apesar dos poucos encontros, eles sempre foram calorosos e intensos — geralmente em bares underground ou em shows de sua banda phudida.

El Khouri chegou a escrever o prefácio de um dos livros de Ulisses, além de entrevistá-lo em 2011.

Aqui neste link você confere o bate-papo completo: https://molholivre.blogspot.com/2011/06/ulisses-aesse-o-jornalismo-vivo.html

Em 2013 inclusive o outsider pintor desenhou o jornalista punk:





No quadrinho O Filósofo da Maconha, a primeira página em branco foi pensada especialmente para quem adquire a obra: um espaço reservado para uma caricatura personalizada acompanhada de dedicatória. Assim, o quadrinho deixa de ser apenas uma publicação e se transforma em uma peça única.

                     E, claro, fizemos a caricatura de Ulisses Aesse:




O quadrinho, com roteiro de Fabio da Silva Barbosa e arte de Diego El Khouri, ainda está disponível — restam poucos exemplares.

Faça como Ulisses Aesse e garanta o seu antes que acabe.




Exame de Fezes:






quarta-feira, 18 de março de 2026

Amor Cristão, de Bruno Enrico: uma canção contra o fundamentalismo religioso

 


Por Bruno Enrico


Durante a pandemia, sobrevivendo ao caos público, criando e conhecendo maneiras de enfrentar e de alguma maneira subverter o distanciamento/isolamento social, os grupos de WhatsApp começaram a bombar, na mesma medida que reuniam afetos, pessoas e pensamentos, também aproximaram água e óleo. Não recordo ao certo como cheguei em grupos religiosos, majoritariamente ocupados por cristãos e evangélicos, fundamentalistas e radicais religiosos, tentando recordar com mais força, provavelmente foi devido aos debates políticos que ferviam e a constante investida já em curso das bancadas da bala/evangélica na política institucional...

Particularmente sempre fui atraído pela ideologia anarquista e vertentes libertárias, ainda muito moleque tive meus primeiros contatos e mergulhos nos materiais, ideias e ideais, livros e reflexões e dali para frente, todo meu contexto existencial teve como pilar principal o constante questionamento, enfrentamento, resistência e expansão da mente. 

No infinito universo dos “anarquismos”, me deparei com outros pensamentos interessantes, como o agnosticismo e posteriormente (onde encontrei meu chão fértil) o ateísmo humanista, fortificado pela ética secular. 

Qual motivo dessa breve apresentação? Bom, eu estava vivendo na minha bolha... 

Não sei ao certo se o tamanho, diversidade, pluralidade e multiculturalismo de uma cidade como São Paulo, facilita que consigamos encontrar pessoas que compartilham motivos, raciocínios e existências semelhantes à nossa, mas fato que na minha bolha, estavam libertários, veganos, vegetarianos e uma quantidade gigante de revoltados e revoltadas que sempre fizeram questão de se opor e construir seus mundos diferentes. 

Retornando a terrível época da pandemia e os famigerados grupos de WhatsApp, foi um choque muito grande me deparar com pessoas completamente alienadas pela religião, pessoas que desejam a morte de seus semelhantes só por não seguir a religião deles, comecei a perceber o quanto estava alienado pensando que estamos criando um mundo melhor, quando na verdade, igrejas estavam mil anos na frente, fazendo lavagem cerebral em seus cultos, pregando ódio a outras religiões, execrando mulheres feministas, LGBTS, ridicularizando e reduzindo a banalidade, toda a pesquisa da ciência, medicina, a esquerda e por ai vai, tudo por poder, tudo por adeptos, tudo pelo cifrão...

Nesse contexto, descobri pessoas por todo o país que sofrem com o fundamentalismo religioso promovido por igrejas, pastores e verdadeiros “exércitos neopentecostais”, principalmente nas regiões mais afastadas dos grandes centros, ateus, agnósticos ou simplesmente quem se opõem a ideia do deus cristão ou religiões, são os locais onde a nefasta teia de discriminação, exclusão social e anulação profissional ocorrem, o inferno tão citado no imaginário do “povo de deus” é o que justamente fazem na vida dessas pessoas.. 

Nos grupos, onde eram feitos debates teológicos, presenciei o quão cruel é a religião e os adeptos e devotos de “cristo”, ódio, ameaças de morte, pragas e doenças desejadas para desafetos, o amor cristão ali, desejou que o seu semelhante agonizasse com um câncer violento e terminal.

Algumas pessoas vão dizer que é caso isolado, porém desafio qualquer um a abrir o livro mais importante de tais devotos fervorosos, um livro que prega ódio, perseguição, intolerância e violência... A Bíblia é manual, cartilha e direcionamento... 

Como músico e humanista, como eterno ocupante do front de uma batalha de vida, senti o dever de mostrar uma pequena ponta desse iceberg, uma realidade que muitas pessoas que vivem numa bolha como eu vivia não conseguem ver... 

Tentáculos da dominação teocrática no Brasil, uma ditadura que já existe, já domina o território, o cifrão e principalmente, a mente das pessoas.


Ficha Técnica:

Produção de áudio: Bruno Enrico

Produção de vídeo: Motim Underground

Guitarra: Bruno Enrico

Bateria: Caue Leite

Baixo: Luciano de Setti

Vozes: Cristãos...


https://youtu.be/RIJLLf8G5I8?si=euS-CrVcXz4BQr44



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Veja também a entrevista que fizemos com o Bruno Enrico

 no clássico programa Deu Merda:




segunda-feira, 16 de março de 2026

Revista O Bule — Coluna # 8 — Lançamento do livro Crisântemo

 



Carlos (20 anos) é um jovem músico que vê seu mundo desmoronar em uma sucessão de tragédias. Assombrado pela perda de Lucas, seu melhor amigo e baterista da banda, Carlos mergulha em uma espiral de dor, culpa e desconfiança. Cada pilar de sua vida parece ruir: o relacionamento conturbado com a mãe atinge um ponto de ruptura, antigos amores retornam com segredos avassaladores e a própria música, sua única válvula de escape, é silenciada.


Expulso de casa e vagando por uma cidade que parece indiferente ao seu sofrimento, Carlos se vê confrontado por verdades dolorosas sobre as pessoas que mais amava. À beira do abismo, ele precisa encontrar uma razão para continuar em meio ao caos. Crisântemo é uma jornada visceral sobre luto, abandono, traição e a busca por um novo sentido para a vida, onde a amizade e a arte se tornam os últimos refúgios contra a escuridão, e uma única canção pode ser a chave para a redenção.


Ficha técnica

Ano de publicação: 2025

1ª edição

126 páginas

Cápsula Editora

Ficção: novela

Formato: 15 x 21 cm



Onde adquirir o Crisântemo

E-book disponível na Amazon: https://www.amazon.com.br/dp/B0FPBP4Q3W (R$ 13,99)


Ou no lançamento:


📍 Local: Sala de eventos da Biblioteca Municipal de Uberlândia (Praça Jacy de Assis, s/n – Centro)

🗓️ Data: 20 de março

Hora: 18h30



Sobre os autores


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação.


Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Publicou diversas resenhas, artigos de opinião e artigos acadêmicos sobre leitura e literatura, com foco em obras e autores brasileiros. Crisântemo é sua primeira obra jovem adulta.

domingo, 15 de março de 2026

Páginas em Carne Viva estreia no YouTubodigestivo com “Os Últimos Dias de Pompeo”, de Andrea Pazienza

 



Hoje postamos um novo vídeo no canal do YouTubodigestivo da Editora Merda na Mão.

E não é qualquer vídeo: é o nascimento de um programa novo.

Páginas em Carne Viva — um espaço para falar de quadrinhos que não pedem licença, não pedem desculpa e muitas vezes  indigestos.

O episódio #01 começa justamente com um deles.

Este vídeo existe por um motivo simples: quase não existem vídeos sobre esse quadrinho.

E os poucos que existem tratam a obra com certo desdém — acham a HQ pesada demais, dark demais, junkie demais, drogada demais.

Mas talvez seja justamente aí que esteja a força do trabalho do italiano Andrea Pazienza (1956–1988).

Os Últimos Dias de Pompeo é um mergulho brutal na mente de um personagem que atravessa a noite, a heroína e a própria autodestruição.

E o desenho acompanha essa descida: em alguns momentos o traço é obsessivo, detalhado, refinado; em outros, vira algo bruto, rápido, quase selvagem — como se o próprio quadrinho estivesse entrando em colapso.

Publicado no Brasil pela Editora Veneta em 2016, esse é um daqueles trabalhos que continuam perturbadores décadas depois de terem sido feitos.



Aliás, esse é um vídeo que já queríamos  fazer há alguns meses — um daqueles quadrinhos que ficam rondando a cabeça até você finalmente sentar e falar sobre eles.

Andrea Pazienza morreu de overdose de heroína aos 32 anos, tendo um final tão brutal quanto o próprio personagem Pompeo.

Talvez isso também explique por que essa obra ainda incomoda tanta gente.

Para a Editora Merda na Mão, é justamente nesse território — sombrio, indigesto e desgraçado — que nasce a arte mais intensa e necessária.



 Páginas em Carne Viva #01
Os Últimos Dias de Pompeo — Andrea Pazienza

Apresentação: Diego El Khouri
O outsider da galáxia de Parnaso.

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Aqui o vídeo na íntegra: 










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sábado, 14 de março de 2026

Versos & Cortes # 15 — Glauco Mattoso, " o poeta da crueldade"


 Neste episódio do Versos & Cortes, Diego El Khouri lê um poema de Glauco Mattoso, autor frequentemente chamado de “poeta da crueldade”. Figura fundamental da chamada poesia marginal brasileira desde os anos 1970, Mattoso construiu uma obra singular ao tensionar a tradição literária com sarcasmo, obscenidade, crítica política e um humor feroz. Em sua escrita, o soneto clássico deixa de ser apenas forma: vira campo de confronto, um espaço onde a linguagem é levada ao limite e a moral confortável do leitor é constantemente provocada.


O poema apresentado integra o livro Deshumanismo em Dissonetto (2022), publicado pela Editora Merda na Mão. A obra nasce sob o signo deste século sinistro — perverso, violento e fascista — e radicaliza a proposta estética de Mattoso ao empurrar o soneto para zonas extremas de dissonância, onde convivem violência verbal, ironia corrosiva e uma recusa aberta à hipocrisia cultural. Cada poema funciona como uma pequena máquina de choque — ao mesmo tempo erudita e escatológica, clássica na forma e explosiva no conteúdo.



A leitura é realizada por Diego El Khouri, artista visual e escritor que também assina a arte da capa e o prefácio desta edição, ao lado de Fabio da Silva Barbosa. O encontro entre o universo gráfico de El Khouri e a poesia brutal de Mattoso reforça o espírito do livro: uma obra que não busca conciliação, mas confronto.

Aqui o programa na íntegra:



DISSONNETTO ASSUMIDO [0509]

Mattoso, que nasceu deficiente,
ainda foi currado em plena infância;
lambeu com nojo o pé; chupou com ânsia
o pau: mijou engoliu, salgou o quente.

Escravo dos moleques, se ressente
do trauma e se tornou da intolerância
um nu ou cru cantor, mesmo à distância,
enquanto a luz se apaga em sua lente.

Tortura, humilhação é o que se excreta
das glândulas, dos poros, duma pica,
são temas que abordou, na mais castiça
e crua das linguagens, o antisheta.

Merece o que o vaidoso não cobiça
e ao povo odiado a praxe veta:
um título que, além de ser “poeta”,
será “da crueldade” por justiça.

(Glauco Mattoso)


Versos & Cortes é um programa periódico do canal do youtubodigestivo da Editora Merda na Mão dedicado à poesia, leituras públicas e literatura underground — um espaço para autores que operam fora das vitrines domesticadas da cultura.

Aqui a palavra não vem para agradar.
Vem para cortar.



Título: Deshumanismo em Dissonetto
Autor: Glauco Mattoso
Formato: 14X21 cm
Páginas: 208
Capa: cartão 300 c/ laminação brilho
Diagramação da capa: Jackson Abacatu
Diagramação do miolo: Fabio da Silva Barbosa
Arte da capa: Diego El Khouri
Ano: 2022





Esta obra marcou a 40ª publicação da Editora Merda na Mão


Aqui estão as duas entrevistas que Diego El Khouri realizou com Glauco Mattoso, ainda antes da existência da Editora Merda na Mão: