Postamos no canal do YouTubodigestivo da Editora Merda na Mão um trecho da fala do escritor Fabio da Silva Barbosa — editor do clássico zine Reboco Caído e um dos criadores dessa engrenagem maldita — rasgando a trajetória de uma editora que nasceu para publicar os impublicáveis.
“Para proteger o estado de direito contra o terror, considera-se que deve-se cometer violência contra a lei, ou devemos constitucionalizar o que apenas ontem era visto como uma exceção ou como pura ilegalidade.”
(Achille Mbembe, em Necropolítica)
O EP/lyric video Necropolítica, do Corja, foi lançado no dia 01 de abril (dia da mentira), ao meio-dia — e agora estamos divulgando aqui no blog da lisérgica punk Editora Merda na Mão.
Produzido pelo @motimunderground, a música e o vídeo falam por si só sobre como a máquina do Estado tem sido constantemente usada para matar a população — e como nossas vidas correm risco em todos os lugares, o tempo todo.
Dessa vez, O Filósofo da Maconhaaterrissou em um lugar muito especial — um espaço que faz parte da formação de um dos envolvidos nessa história em quadrinhos punk lisérgica, nascida para incomodar e libertar a mente: a casa da professora Sandra Silveira.
Professora de português, sempre incentivou a leitura e o pensamento crítico. Filha de outra docente, hoje falecida, Dona Malta, Sandra construiu uma forma de comunicação inteligente e diferenciada com os estudantes. Sempre se atualizando, observando novas tendências e evitando se prender ao passado.
Diego El Khouri, roteirista da graphic novel chapada, é grato por todo o incentivo e tem grande respeito por essa professora que tanto o instigou ao longo do ensino médio, no Colégio José Rodrigues Naves, em Goianira — uma cidade do interior de Goiás e que marcou profundamente sua jornada.
Na primeira página da HQ, como de costume, quem adquire o quadrinho ganha uma caricatura, e com a professora não foi diferente. Diego já tinha a desenhando anos atrás, aos 16 anos de idade; um desenho recentemente resgatado.
E abaixo a caricatura feita na HQ:
...Uma professora adquirir um quadrinho com esse peso mostra a cabeça boa que ela tem...
A exposição Ruas e Cores: Hip-Hop emTela segue em exibição na Cidade de Goiás até o dia 17/04 — e, devido ao sucesso da mostra, teve seu período prolongado — ampliando esse ciclo potente de encontros, trocas e atravessamentos entre arte, ancestralidade, museu e rua.
A mostra mergulha na força do hip-hop goiano, atravessando memória, identidade e transformação — uma expressão que nasce na rua, reverbera na arte e ocupa espaços, tensionando estruturas e abrindo novos caminhos.
Ainda dá tempo de sentir essa presença pulsando de perto.
Artista: Diego El Khouri
Produção cultural e curadoria: Lívia Batista
Site oficial com a pesquisa e as obras do projeto disponível:
* No Museu das Bandeiras, antigo espaço de repressão e encarceramento, ecoa uma história brutal marcada pela violência contra corpos escravizados. Hoje, essa mesma estrutura abriga vozes que resistem — e o hip-hop se inscreve ali como continuidade dessa memória: denúncia, ancestralidade e permanência.
Chegou a Vitória da Conquista (Bahia) um verdadeiro arsenal pesado vindo do subterrâneo, direto da casa de uma lenda viva do underground: Nem Tosco Todo, vocalista da clássica banda Cama de Jornal e uma das figuras mais importantes da cena independente brasileira.
Nem é um grande parceiro da Editora Merda na Mão. Inclusive, em seus dois últimos livros — Estamos Mais do que Vivos e Diálogos Imaginários e outros escritos (lançados pela Editora Dando a Letra e Tosco Todo) — fomos apoiadores contraculturais dessas obras surpreendentes, que também revelaram ao mundo seu lado literário.
Seu primeiro livro foi a biografia de 352 páginas intitulada Vagando por Aí, publicada em 2023. Em sua turnê por Goiânia, Nem trocou materiais com a Merda na Mão, na pessoa de Diego El Khouri — ocasião em que a editora expôs sua banquinha punk lisérgica no evento promovido pela Two Beers or Not Two Beers Records.
Foi nesse encontro que surgiu o convite para que a editora ajudasse Nem a impulsionar essa nova linguagem pulsante de sua existência: a literatura.
* Na foto Diego El Khouri & Nem Tosco Todo
Nem ficou muito interessado em adquirir a HQ O Filósofo da Maconha. Enviamos pra ele, passou dias e dias, semanas e nada do material chegar. No site do correio só informava a data que saiu de Goiânia... Até que no rastreamento apareceu uma informação absurda: o remetente autorizou destruir. Fui no correio e os próprios funcionários nunca viram nada parecido. Não consegui resolver isso. Tive que reenviar e enfim felizmente dessa vez chegou.
A Editora Merda na Mão respeita pra caralho a trajetória desse maluco, que faz da própria vida uma forma de resistência artística e cultural. Um agitador cultural de verdade, dos mais foda.
Pra gente, essa parceria é uma honra. Uma puta honra.
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No Youtubodigestivo o show que celebrou o encontro da Editora Merda na Mão com a banda punk Cama de Jornal:
* Nascido em Vitória da Conquista, Bahia, Emanuel Moraes, conhecido como Nem Tosco Todo é vocalista da banda de punk rock Cama de Jornal e tem um projeto paralelo chamado Nem Tosco Todo e as Crianças Sem Futuro.
O Filósofo da Maconha pousou no caos de São Paulo, no lar de uma roteirista relevante da cena dos quadrinhos nacionais: Anita Costa Prado, criadora de Katita, personagem clássica das tiras brasileiras — e não chegou sozinho. Levou consigo alguns zines publicados pela Editora Merda na Mão, além do zine O Berro, publicado pelo camarada Winter Bastos, que fazemos questão de espalhar por aí.
Título: Blasfemo nr. 2
Editor: Diego El Khouri
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 12
Arte da Capa: Diego El Khouri
Ano: 2022
Título: Blasfemo nr. 3
Editor: Diego El Khouri
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 12
Arte da Capa: Diego El Khouri
Ano: 2024
Título: Religare
Autor: Ningu3m
Prefácio: Fabio da Silva Barbosa
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 12
Ano: 2024
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Título: O Berro nr. 36
Editor: Winter Bastos
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 16
Arte da Capa: Winter Bastos
Ano: 2024
* Katita, personagem roteirizado pela Anita, se afirma como uma personagem de resistência: lésbica, crítica e direta, que usa o humor para tensionar preconceitos e confrontar posturas homofóbicas. É aí que reside a importância do quadrinho — não apenas como entretenimento, mas como ferramenta de enfrentamento e posicionamento dentro da cena dos quadrinhos brasileiros.
Esse viés mais provocativo aparece, inclusive, no zine “Fala aê, porra!!! nº 1”, de Diego El Khouri, publicado há cerca de uma década, onde uma dessas tiras explicita essa postura combativa:
E vale lembrar: quem adquirir O Filósofo da Maconha — um quadrinho de fôlego, com 126 páginas, roteiro de Fabio Barbosa e desenhos de Diego El Khouri — recebe uma caricatura personalizada na primeira página, espaço pensado justamente para esse tipo de intervenção artística, acompanhada de uma dedicatória.
E, claro, não poderia ser diferente: no exemplar recebido por Anita, está lá a caricatura dela:
E é uma honra para nós, da Editora Merda na Mão, ver um quadrinho feito com tanto suor e dedicação integrar o acervo de uma figura tão importante no cenário da arte brasileira. Pra a gente, isso é uma grande satisfação!