sexta-feira, 13 de março de 2026

A FÁBULA DO CANGURU E DO ORNITORRINCO

 



(Por: Winter Bastos)


Ei, você aí, me diz uma coisa: cê prefere uma vida mais longa e tranquila ou uma mais intensa, porém mais curta? Não, não, não, camarada, não se apresse a responder. Leia primeiro esta estória, que tem o título A FÁBULA DO CANGURU E DO ORNITORRINCO. É, tem razão, o título já estava escrito aí em cima, mas tudo bem, era pra ver se você estava prestando atenção. Aí vai:


Era uma vez (ou duas, não lembro bem) um canguru que vivia encarnando no seu colega ornitorrinco.


- Cara, cê vive aí paradão na beira do rio, parece até tartaruga ou cágado ou jabuti, sei lá, não parece nem que é meu parente, afinal cê também é mamífero australiano, né? - Ia dizendo o canguru saltando no mesmo lugar, agitado como ele só - Cê tem que aproveitar a vida, o mundo tá girando e tu aí parado, perdendo tempo, vai curtir...


O ornitorrinco abriu o bico num grande bocejo e nem se deu ao trabalho de responder. Foi se requebrando devagar margeando o rio e, antes que entrasse preguiçosamente na água, ouviu o ruído do canguru em disparada pela estrada de terra, levantando poeira com seus saltos. Zuuuuuuum!


- Uaaaaaaa! - bocejou o ornitorrinco depois de seu longo banho, subindo de novo pela margem.


- Ué, cê ainda está aí? - perguntou o canguru, que já tinha voltado.


O outro, em vez de responder, só vasculhou entre os pelos procurando alguma coisa que tinha guardado. Achou: era um preservativo.


O canguru arregalou os olhos e disse que aquilo era um absurdo, afinal ornitorrinco não usa camisinha, onde é que já se viu isso, como pode? "Cê é maluco, cê é maluco", repetia o sujeitinho saltitante levantando mais pó da estada.


- Em vez de ficar aí parado segurando isso,  você tinha é que fazer como eu: correr por aí. Eu já conheci tudo quanto é lugar. Subi nas montanhas mais altas, corri pela beirada dos desfiladeiros, dei mergulhos ornamentais em lagoas profundas. E você, já fez o quê? Fica só aí na beira do rio. Cê é mesmo um esquisitão, nem sabe o que tu mesmo é: tem bico mas também tem pelo, nasce em ovo mas não é réptil. Onde é que já se viu um mamífero assim?


- Ué? Aqui, ora - disse o ornitorrinco antes doutro bocejo.


O canguru ficou com os olhos injetados de raiva, não sei se pela resposta ou pelo bocejo, ou pelas duas coisas. Esbravejou:


- Seu esquisitão, seu doido varrido, fica aí então!!! Eu vou aproveitar a vida - e saiu em disparada levantando um turbilhão de poeira.


Uma ornitorrinco fêmea, que aliás era feminista e só aceitava ser chamada de ornitorrinca, se aproximou do colega bicudo e perguntou:


-  O que deu nesse seu amigo pra sair correndo assim?


- Ah, deixa ele pra lá.


A ornitorrinca chamou então o colega para a outra margem, onde ficaram preguiçando juntos, até que ela perguntou:


- Você trouxe camisinha?

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Retirado do blog Expressão Liberta (https://expressaoliberta.blogspot.com/), página criada por Winter Bastos, editor do zine O Berro.


Abaixo, as duas partes da entrevista que fizemos com ele para o clássico programa Deu Merda:





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