sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Geração sujeira

Por: PISICO

Eu vi os nóias da Feira do Rato

Queimando fios de poste roubados

Para vender o cobre e darem mais um trago

Num pico todo cagado 

De paredes obscurecidas pela fuligem

Que atropelava a minha pixação

O que é morte? 

Matéria em desorganização 

A vida é um sonho do qual despertamos

Atingindo a plena compreensão 

A consciência não está no cérebro Esta permeia tudo

Penetra o ânus e a boceta do mundo

A consciência da consciência cósmica é o nirvana

Meu ego dissolvido flutuando é o prana

Tomando banho na enchente de inverno 

Os pivetes na Brejal amontoados 

Sobrevivendo no Inferno 

De fato a nossa piscina está cheia de mijo de rato e coliformes fecais

Fumei um baseado

Ouvindo Racionais 

Não quero iate mas como as pattys

Da burguesia só se salva as bitchs e o uísque

Tipo um ninja afiado

Na viela da quebra

Num beco pixado

Lançando minha tag

Deixando um legado

Rabiscos distorcidos

Os mais belos letrados

Ladrões da normalidade

Atitude e criatividade

Ocupando a cidade

Guerrilha urbana através da arte

Sou o cosmos se expressando 

O um é o todo e aqui todos são manos

Ordem Oculta da Contravenção 

Fazendo a conexão entre os irmãos 

Baguio pixação 

Doidão de erva no peão 

Desbaratinação

Pixadores em ação 

Subversão

Vestindo um trapo 

Saí para pixar

Beber e fumar

Colei no mercado pra riscar

E trombar o traficante

Fumar no beco um prensado

Liga nóis meu aliado

Olha a TAG do barata 

Meu comparsa

Lanço um xarpi ALMA

O reto é o PISICO

Gambé desembaça 

São três da madrugada

Na revoada

A riqueza que ostento é o conhecimento 

Sempre sereno andando sob o sereno

Judá MC no rádio 

Poetas no topo da Borborema 

Perplexo imerso num instante eterno enquanto durar

Cientificismo dogmático a doutrinar

Há um Design Inteligente na natureza 

A consciência cósmica a permear tudo que há 

Metafísica 

A mente infinita a flutuar no éter a pairar

Tudo o que é sólido se desmancha no ar

Jogo fumaça para o alto se pá 

O sangue a circular 

O Nordeste em mim a pulsar

Sou de Mcz

Pixei as ruas de BA

O último beck do pote é um drama

Queimei mais de 25 grama

Tiro no beco 

Eu tinha flagrante 

Um membro de gangue deixou rastros de sangue na entrada da viela

O IML chegou 

Sem choro nem vela

Mas alguém passou mal

Cotidiano Horrorcore

Genocídio é banal

Menos necropolítica

Mais sexo anal

A solução final

Terrorista na lírica 

Atentado é fatal

O que é real?

Sinais elétricos que o cérebro interpreta

A Matrix lhe pegou quando você com o seu ego se identificou 

Tudo é energia

Realidade simulada holográfica

Rasguei os véus de Maya 

Na biqueira em busca de iluminação 

Através da intoxicação por diversão


(PISICO)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Outsider da galáxia de Parnaso VI

 

 por: diego el khouri


esquartejar a lógica comum, herdeira do nacionalismo. fuder as normas impostas por poderes de luxo e lixo. bater punheta nas portas do abismo. precipício. outsider da galáxia de  parnaso. desfigurados humanos: antes homens de bem, hoje bem longe de mim. aqui. ali urubus. cântico da morte absoluta. esporrar em caixões familiares. milícia do caos. prestam serviços ao deus capital. ser vagabundo e drogado. anjo torto e imaculado. sem respeito ao sangue que escoa nos poros. família-cu. família-cadáver. família-cocô. cocoricó. cedo. bem cedo. ou tarde. arde a vela mortuária do palimpsesto da memória. surreal todas palavras. sem nexo. droga bate forte. forte. arde. mente insana. nada a declarar. cagando e andando. sem deus, pátria ou patrão. cão cadavérico. vômito e catarro. escorrendo. escorrendo. escorrendo. escorrendo. chupar nariz.  esfregar o cu na porta da empresa. manchar a parede. maçaneta pingando fezes. merda na mão. porrada no estômago. copo cheio. convulsão em são paulo. delegacia. quase assassinato. rio de janeiro. caindo do ônibus. me carrega.

 

—  entre. entre. entre.

 

—   as portas estão abertas. pra que mais que um isqueiro e um baseado? 



Título: Dilaceramentos
Técnica: Óleo sobre papel
Dimensões: 420 x 297 mm
Artista: Diego El Khouri

* Retirado do blog:

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

HQ O Filósofo da Maconha: um tapa na cara da caretice!

 



Da série: leitores

Valdir Ramos, diretamente de Araraquara (SP), com a HQ O Flósofo da Maconha: um tapa na cara da caretice.


 Trampo da Editora Merda na Mão, adquirido em 2025, com roteiro furioso de Fabio da Silva Barbosa e desenhos do  insano Diego El Khouri . E como se não bastasse, ainda tem o roteiro absurdo — no melhor sentido — do gigante multiartista Ciberpajé. Nada aqui é brando, nada é neutro, nada é comportado.


@editoramerdanamao — publicando os impublicáveis, escarrando no status quo e rindo do bom senso.




A cada HQ adquirida, o leitor ganha uma caricatura personalizada na primeira página.
A caricatura do Valdir infelizmente se perdeu após uma limpeza no celular, mas abaixo seguem algumas das várias caricaturas já realizadas:































terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Direto da ferida: um poema de Coração Enrolado em Arame Farpado & Outras Tretas Rolando


 ELECTRO ESPECTRO.

Nas luzes que dançam
A música alucinada,
Na boca que nunca cansa
De ser beijada
Electro Espectro, Electro Espectro
Nas cores do tempo
Os vapores do sexo,
No olhar mais lento
Que ferve o reflexo
Electro Espectro, Electro Espectro
Na manhã que desperta
E ao sol nada diz,
Só o coração não esconde
Esse gozo feliz
Electro Espectro, Electro Espectro.
Gutemberg F. Loki.

Este é um dos poemas presentes no livro de poesias Coração Enrolado em Arame Farpado & Outras Tretas Rolando.
Quem quiser adquirir, é baratinho: é só acessar o QR Code ou o link abaixo. O livro chega numa boa, direto na sua casa.


Publicado em 24 de dezembro de 2025, Coração Enrolado em Arame Farpado & Outras Tretas Rolando é a 58ª publicação da Editora Merda na Mão, reafirmando o compromisso da editora com obras subversivas, diretas e sem concessões.


Título: Coração enrolado em arame farpado & outras tretas rolando
Autor:  Gutemberg F. Loki
Dimensões: 13,9 × 21 × 0,38 cm
Páginas: 56
Miolo: Papel Avena / Pólen
Capa: Fosco, com orelha
Diagramação e designer: Lívia Batista
Arte da capa e ilustrações: Diego El Khouri
Ano: 2025

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Revista O Bule — Coluna # 6 — As diversas referências de “Ensaios sobre a total libertação”, de Rogers Silva

 



https://www.revistaobule.com.br/

Ao ler um livro, vocês já sentiram que ele é uma conversa entre vários escritores, filósofos, intelectuais e artistas?

 Ensaios sobre a total libertação decide brincar com a metaficção e a intertextualidade e criar um verdadeiro labirinto de referências. Para quem ama a literatura, em especial, o livro está cheio de "easter eggs"!

Olha só quem você vai encontrar:

Carlos Drummond de Andrade: É o autor da epígrafe do livro Manicômio, encontrado num banco de uma praça por João. Seu nome também compõe o título do primeiro conto: " Drummond no Orkut". É autor do livro do poema "A um ausente", transcrito no perfil do Orkut de Maria Angélica, autor do livro de poemas A rosa do povo, analisado no projeto de mestrado (“A máquina-führer”). Eita, Drummond!

Machado de Assis e José de Alencar: citados no conto “Drummond no Orkut”, quando João, o protagonista, lê o livro Manicômio.

Campos de Carvalho: Escritor real, mineiro, tomado como personagem e autor (ficcional) de “Beócia carta para um mundo igualmente etc.”, sua derradeira obra. Seu romance A lua vem da Ásia é um dos objetos de análise do projeto de mestrado de Sinvaldo Júnior – tudo isso acontece no conto "A máquina- führer".

Belchior: Mencionado como o autor de uma música que ainda será composta.

Thomas Hobbes: Referenciado na expressão "Thomas no Hobbes", usada pelos personagens do conto "Ensaio sobre a libertação total". Sua ideia de que "o homem é o lobo do homem" (homo homini lupus) é citada e contrastada com a Filosofia Libertadora, criada pelo personagem Jéferson, do mesmo conto. 

John Locke: Referenciado na expressão "John no Locke" e mencionado entre os grandes filósofos com os quais a Filosofia Libertadora se compara.

Karl Marx: Mencionado em discussões sobre socialismo e citado, por Jéferson, por ter acertado que "a filosofia deve incidir sobre a realidade".

Sócrates: Citado nas reflexões sobre a Filosofia Libertadora. É referenciado por sua máxima de que o "filósofo é aquele que nada sabe" e por seu lema "Conhece-te a ti mesmo", que é complementado para incluir o inimigo. A falsa modéstia do Grande filósofo é comparada à de Sócrates.

Platão: Mencionado em dois contextos: primeiramente, como um dos filósofos que substituiu na vida de Jéferson temas como atrizes e futebolistas; e em uma comparação da Filosofia Libertadora com a Teoria das Ideias (mundo sensível e mundo inteligível).

Aristóteles: Mencionado pela definição de filósofo (aquele que tem a totalidade do saber possível) e pela definição de sofista.

Friedrich Nietzsche: Referenciado na comparação com a Filosofia Libertadora, através dos conceitos de "homem" (fase estática) e "super-homem"(fase dinâmica), e é citado, de forma paradoxal, com um verso da Bíblia.

Guimarães Rosa: Autor do livro Sagarana, classificado como "excelente" em “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”. Seu conto "O espelho" também é citado por Jéferson e seu livro Primeiras estórias é mencionado como um livro que o protagonista do conto “Ensaio sobre a libertação total” ainda não tinha lido.

Sófocles: Autor da obra Édipo Rei, lida por Jéferson, que cita um verso dela.

  René Descartes, Rousseau, Kant, Auguste Comte: Mencionado entre os grandes filósofos para comparação com a Filosofia Libertadora, de Jéferson.

Érico Veríssimo: Mencionado como o autor do livro Clarissa, classificado como "muito mais ou menos", por Rogers, o protagonista de “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”.

Rachel de Queiroz: Citada como a autora de O quinze,

considerada uma obra "aceitável pra um autor estreante",

também no conto “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”.


Clarice Lispector: Mencionado como a autora de Perto do coração selvagem, classificado como uma "ótima estreia".

José Lins do Rego: Mencionado como o autor do livro Menino de engenho, classificado como "até bonzinho".

Jorge Amado: Mencionado como o autor de O País do Carnaval, que "foi bem aceito, mas nem se compara ao meu", dito por Rogers por conta do seu primeiro romance publicado, Paraíso. Está em “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”.

Gabriel García Márquez: Autor do livro O outono do patriarca, de onde é retirada a epígrafe do conto “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”.

Luigi Pirandello, Jorge Luis Borges, Paul Auster: Autores cujas obras curtas Rogers Silva leu em busca de inspiração para o final do seu conto.

Augustina Bessa-Luís: Autora da obra A sibila, citada no caderno de anotações de Rogers Silva.

Ignácio de Loyola Brandão: Autor da obra O anônimo célebre, citada no caderno de anotações de Rogers Silva.

Rogers Silva (eu mesmo): O livro Manicômio é achado por João, personagem do conto “Drummond no Orkut”. Rogers também é o tema central da história "A máquina-führer", onde é mencionado como o autor que criou o personagem KlausHoffman e, por consequência, seria considerado o "Grande Culpado" pela Segunda Guerra Mundial, o que o levaria ao suicídio. Rogers (eu mesmo) também é o protagonista de “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”.

Obras literárias lidas e discutidas em Ensaios sobre a total libertação:

Manicômio: O livro encontrado por João na praça, escrito por Rogers Silva (eu!). As narrativas do livro são lidas pelo personagem João.

Paraíso: O primeiro romance publicado por Rogers Silva, escrito entre os dezesseis e dezessete anos e tema de discussão entre o autor e seu "perseguidor" em “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”.

O quinze: Livro de Rachel de Queiroz, comparado à obra de estreia de Rogers Silva.

 Perto do coração selvagem: Livro de Clarice Lispector, comparado à obra de estreia de Rogers Silva.

Sagarana: Livro de Guimarães Rosa, comparado à obra de estreia de Rogers Silva.

Menino de engenho: Livro de José Lins do Rego, comparado à obra de estreia de Rogers Silva.

Clarissa: Livro de Érico Veríssimo, comparado à obra de estreia de Rogers Silva.

O país do carnaval: Livro de Jorge Amado, comparado à obra de estreia de Rogers Silva.

A lua vem da Ásia: Romance de Campos de Carvalho, analisado no projeto de mestrado, em paralelo com A rosa do povo, por um personagem que surge em “A máquina-führer”.

A rosa do povo: Livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade, analisado no projeto de mestrado. Aparece no mesmo conto.

Visão 1944: Poema de A rosa do povo de Drummond, citado no projeto de mestrado. Aparece no mesmo conto.

Édipo Rei: Obra de Sófocles, indicada por um amigo a Jéferson e lida por ele, que cita um verso.

A um ausente: Poema de Carlos Drummond de Andrade transcrito no perfil do Orkut de Maria Angélica.

Quer descobrir mais referências?

Estão lá no Ensaios sobre a total libertação.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Está quase nascendo a HQ XXI — A Ópera da Desgraça

AGUARDEM. AGUARDEM. 



Está quase saindo do caldeirão de fogo a HQ XXI — A Ópera da Desgraça. 200 páginas de um trabalho de fôlego, produzido ao longo de 3 anos (2019–2023) por Diego El Khouri, o outsider da galáxia de Parnaso, como quem escrevia o último adeus da arte — a cortina fechando, a luz se apagando na retina. 

Entre mergulhos artísticos, o caos, a luta insana pela sobrevivência, a total precariedade dos dias, outros lançamentos e a vida em ruínas, essa HQ ficou guardada na gaveta — agora vamos vomitar no mundo essa obra provocativa, visceral e indigesta, a crítica mais pesada e contundente que o século XXI vai ter que engolir. 



Roteiro e desenho: Diego El Khouri

 Prefácio: Fabio da Silva Barbosa

 Diagramação: Lívia Batista / Mova-se Projetos Culturais.

 Editora Merda na Mão — publicando os impublicáveis —

 Fevereiro de 2026. Aguardem.





                                 INFLAMANDO A INSURGÊNCIA DO GUETO

sábado, 17 de janeiro de 2026

IMPUBLICÁVEIS, MALDITOS E NECESSÁRIOS — O ATAQUE DA EDITORA MERDA NA MÃO



A Editora Merda na Mão é uma editora independente  criada em 12 de abril de 2020 por Fabio da Silva Barbosa e Diego El Khouri, com a missão de publicar os impublicáveis — obras ousadas, marginais e sem lugar no mercado editorial tradicional. Ela dá espaço a autores e artistas que enfrentam barreiras no circuito convencional, lançando livros, zines, HQs e poesia sem cobrar dos autores e com forte estética subversiva e cultural underground. 


https://editoramerdanamao.blogspot.com/




PUBLICANDO OS IMPUBLICÁVEIS


https://www.youtube.com/c/EditoraMerdanaM%C3%A3o



Mais de 50 publicações — cerca de 60 títulos em quase 6 anos de trabalho editorial.

Publicação gratuita para autores — não cobra dos autores para publicar, o que é raro no cenário editorial.

Atuação multiforme — além de livros e zines, desenvolve selo musical, distro,  eventos e presença em feiras culturais.

 Selo musical Ruídos Absurdos – um selo ligado à editora que publica material musical na cena noise, hardcore e experimental.

Merda na Mão Distro – distribuição de CDs e material de bandas nacionais e internacionais do underground.


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Nova publicação da Editora Merda na Mão:



Título: Coração enrolado em arame farpado & outras tretas rolando
Autor:  Gutemberg F. Loki
Dimensões: 13,9 × 21 × 0,38 cm
Páginas: 56
Miolo: Papel Avena / Pólen
Capa: Fosco, com orelha
Diagramação e designer: Lívia Batista
Arte da capa e ilustrações: Diego El Khouri
Ano: 2025
Para adquirir essa obra:









sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Piscina cheia de ratos e ratazanas

E a frase ecoa:

"Vc não tem Instagram?!

Em que mundo vc vive???


Plágios de mesa de bar e outros lugares, por Omar Chuá 


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* Retirado do blog de Ivan Silva: https://atunalgun.blogspot.com/

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

acendo meu fiel baseado



Por edu planchêz maçã silattian


para começar equilibrar os chakras, respiro, bebo água
pingo embaixo da língua 4 gotas de floral,
como uma banana d'água,
faço um pouco de polarização energética
bebo mais água, engulo um calmante
e acendo o meu fiel baseado,
agora o dia começa, minha senhora,
levantou e veio ler o que estou escrevendo,
ela não é a matilde de pablo neruda, nem a galla de dali,
muito menos frida de diego reviera,
e sim a feiticeira catarina crystal
de edu planchêz pã maçã silattian rei lagarto
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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Sorteio cultural: caricatura personalizada por Diego El Khouri



Uma oportunidade única e imperdível:


concorrer a uma caricatura personalizada, feita exclusivamente para você.


Prêmio:


Arte original, criada do zero,

com o traço de Diego El Khouri.


 R$ 20 cada número

15/02/2025 — 15h



Pix: 02098805110


@diegoelkhouriart


Não é sorteio comum.

É arte feita pra uma pessoa só.





domingo, 11 de janeiro de 2026

Revista O Bule — Coluna # 5 — Anímica

 



Por Krishnamurti Góes dos Anjos

Anímica é o 13º livro publicado do escritor Milton Rezende que acaba de vir à público pela Editora Penalux. Na orelha da obra, Rezende fornece breve descrição de como o livro surgiu e de como foi viabilizada a sua edição: “A ideia deste livro veio de uma derivação. Eu já tinha pronto e no prelo, para sair, a minha Antologia Poética. Acontece que era um projeto maior, que cobria grande parte da minha produção poética ao longo destes exatos 36 anos de estrada literária, a contar da data da publicação do meu primeiro livro, 1986. Então tornou-se inviável economicamente, no curto prazo. Nesse ínterim surgiu a possibilidade da inscrição em Ervália, MG, minha terra natal, numa iniciativa cultural no âmbito da Lei Aldir Blanc. Remodelei meu projeto, enxuguei-o ao máximo para se enquadrar aos valores e parâmetros estabelecidos pela Lei e o inscrevi ao certame. Foi escolhido e agora ele é este livro que você tem nas suas mãos. Acolha-o, como se acolhe um protótipo de algo maior, mas que, no entanto, pode ter a certeza de que ele é autônomo e traz todas as características específicas a si mesmo e nada fica a desejar ao corpo maior de onde foi extraído.”

Esclarecemos de saída que o termo Anímico deriva do grego animé, que significa alma. O livro é dividido em 4 partes: Coletânea Cemiterial, Poesias traduzidas, Poemas sequenciais e Prosa poética. Nele o leitor encontra o escritor experiente, que faz perquirições existenciais de suma importância para o mundo tresloucado no qual transformamos o que vivemos hoje. Quanto à primeira, parte da obra, merece registro o fato de que Rezende é autor de outra obra publicada em 2014 que tem o título de “A magia e a arte dos cemitérios”. Um alentado estudo sócio-histórico sobre os cemitérios configurando-os como espaços em que arquitetura, paisagem e artes visuais dialogam com a morte e onde aflora o sentimento de angústia, inerente ao ser humano diante da certeza de seu fim. Lugar onde, fundamentalmente, luto e melancolia, tristeza e dor, medo e sobrenatural materializam-se e ganham evidência. A espacialidade desses ambientes, onde a consciência da finitude humana se faz presente e nos instiga, expõe também uma certa cultura material que age sobre nossos sentidos e ações e revela um singular aspecto da morte domesticada. Como se isto nos fosse possível...

Milton Rezende se refere à condição humana em uma estrofe do poema “Poética I”:

“Os homens estão todos presos / e o poema é apenas um grito / que sufoca em palavras o desespero / dessa nossa cela absurda.”

Oportuna a publicação repetimos, porque no mundo hoje, para além de uma pandemia que já ceifou 3,5 milhões de vidas, conflitos militares aqui e ali seguem se multiplicando ameaçando desastres humanos de proporções mundiais.

Embora nos questionemos pouco sobre a morte, acostumados que vamos ficando com a ideia de ‘parquinho de diversão eterno’ em que querem transformar (sem êxito algum), o planeta Terra, a humanidade segue sua caminhada insensata fomentando paixões que consomem, ódios e diferenças que se aprofundam.

Dono de um estilo que mistura lirismo com pitadas de ironia e sarcasmo, o autor nos faz refletir: por que as gerações se sucedem como camadas de areia que acarretadas incessantemente pelas ondas, vão cobrir outras camadas que as precederam? Por que esses trabalhos, essas lutas, esses sofrimentos, se tudo deve terminar no sepulcro?

No poema “A voz do silêncio”, ainda na série da Coletânea Cemiterial, o poeta a certa altura escreve:

“Mas a terra / (com seus vermes) / decompõe ao seu contato / todo o meu aprendizado / doloroso da vida.

E uma cova me absorvendo / transforma tudo o que fui / num triste resumo de pó / que um dia se chamou homem.

E que lhe deram um nome / (que tive), mas que a terra / aterra no tempo o traço / nominal dessa efemeridade.”

Em sua carreira, para onde vai, pois, o homem? Para o nada ou para uma luz desconhecida? A natureza, risonha, eterna, moldura as tristes ruínas dos impérios, com os seus esplendores. Nela nada morre, senão para renascer. Leis profundas, uma ordem imutável, presidem às suas evoluções. Só o homem, com suas obras, terá por destino o nada, o olvido? Qual o homem que a si mesmo não pediu explicação desse mistério? E que não refletiu no que o espera a si próprio? Seria a morte triste repouso no aniquilamento ou, ao contrário, o ingresso em outra esfera de sensações?

No meio de nossos rudes labores, nenhum ideal elevado, nenhuma noção clara do destino nos sustém; daí nossos desfalecimentos morais, os excessos de revoltas. Extinguiu-se a fé do passado; o ceticismo e o materialismo hedonista substituíram-na, e, ao sopro destes, o fogo das paixões, dos apetites do desejo, tem-se ateado. As convulsões nos chegam a todo momento. O testemunho dos sentidos e a experiência da razão vão nos escapando a passos largos.

Já em outro poema, “Ocorrência”, lemos:

“Tocar com os dedos / os meandros da verdade, / num transporte de desejo / onde o ceticismo perde em essência, / já que acompanhado do impulso de vida / que caracteriza a vontade da procura.

A pretensão de assim reter / uma parcela dos fatos / e com a cumplicidade do sonho, / extrair um pouco de uma felicidade / que de tanto escassa foi perdida / em delírios de falsa vitória.”

É preciso fazer florescer uma nova concepção do mundo e da vida – e isto já foi falado muito! –, um conhecimento de leis superiores, uma afirmação da ordem e da justiça universais, apropriadas a despertar em nossos corações uma fé mais firme e mais esclarecida no futuro, um sentimento profundo de nossos deveres, um afeto real por nossos semelhantes, capazes de transformar a face de nossas sociedades.

Estamos cansados de viver como cegos, ignorando a nós mesmos, pois a satisfação das obras de uma civilização material e inteiramente superficial não convencem. É preciso aspirar a uma ordem de coisas mais elevada.

Custa crer que a vida seja mera ironia da sorte, ou o resultado de um acaso estúpido. Há controvérsias, sabemos, mas não damos sequer a importância devida (porque não nos melhoramos individualmente), que certamente ela é consequência de uma lei justa e equitativa, que abre perspectivas radiosas de futuro, e fornece um alvo mais nobre sobre nossas ações, para que afinal se faça luzir um raio de esperança na noite das incertezas, aliviando o fardo de nossas provações e ensinando a não mais temer a morte.

Que dizer de um poema como “Ciclo II”?

Quando a chuva neutralizar / a esperança das flores no chão / uma semente irá se desenvolver / à imagem e perspectiva de tornar-se, / sintetizando em si todo o anseio dos homens / para que de seus ossos não se faça apenas / um cemitério, mas também um canteiro.”

Dizem que o filósofo francês Jules Michelet teria escrito que “O amor não mata a morte, a morte não mata o amor. No fundo entendem-se muito bem. Cada um deles explica o outro.” Talvez pensando nisto, Milton Rezende tenha concluído seu livro com três deliciosas prosas poéticas que, apesar de se encadearem como passagens da vida de um escritor solitário, têm a firme ancoragem justamente no amor.


https://www.revistaobule.com.br/ *

Revista O Bule é uma revista digital independente dedicada à literatura e ao cinema, criada em 2010. Reúne 12 colunistas de diferentes estados do Brasil e publica quase diariamente contos, poemas, crônicas, resenhas, entrevistas, micronarrativas e críticas de filmes. Funciona como um coletivo não hierarquizado, prioriza o texto (contemporâneo, marginal e canônico), tem histórico de atuação intensa na cena literária e retornou após uma pausa com a mesma proposta: divulgar, discutir e provocar por meio das palavras e das imagens.